
Excelência em Educação Nº 01 de 18
Aprender ou decorar?
Já pensou se todo estímulo que recebemos fosse apreendido? Nossas células cinzentas logo estariam abarrotadas de tanta informação. Como vimos, constantemente o cérebro “deleta” e “arquiva” essas informações. E o que decide o que será guardado ou será esquecido é a atenção.
Ela [a atenção] faz com que, da imensa gama de estímulos, os órgãos dos sentidos selecionem aqueles que devem ser processados pela consciência. Considerando-se que o cérebro se interessa, sobretudo pelas alterações no mundo ao nosso redor, objetos novos, chamativos ou em movimento despertam nossa atenção de forma quase automática. Tudo o que é desconhecido estimula com particular intensidade as redes neuronais e, por isso mesmo, se deposita muito facilmente na memória, como informação. (FRIEDRICH E PREISS, 2006, p. 54)
Por isso, crianças adoram surpresas. Daí a importância de a sala de aula ser um ambiente variado, colorido, alegre, que desperte a curiosidade e o interesse pelo novo. Isso conduz quase que automaticamente ao aprendizado.
Quando o cérebro se depara com uma informação, ele “vasculha” a memória em busca dos arquivos referentes à mensagem que está recebendo. Daí reúne tudo o que já sabe a respeito e inclui o elemento novo – assim se dá o aprendizado – de forma que podemos concluir que quanto mais se sabe sobre um determinado assunto mais facilidade se tem para aprofundar esse conhecimento, retroalimentando o processo.
Mas, como é o cotidiano escolar? Em geral, ele raras vezes procura expandir as capacidades preexistentes. Ao contrário, busca-se compensar o déficit resultante da comparação ente o currículo exigido e o saber efetivo dos alunos/as, como a dizer: “se ela não aprender o cálculo integral agora, não vai atingir o objetivo do curso”. Em vez da escola se valer das capacidades de cada um e de expandi-las, os alunos são predominantemente atormentados com suas deficiências individuais.
Muitos professores/as ensinam suas matérias sempre da mesma maneira. Aos alunos/as, resta, como último recurso, decorar os conteúdos ensinados, em vez de aprendê-los. Do ponto de vista neurobiológico, faz pouco sentido.
Então, se o aluno/a não compreendeu bem o que o professor/a tentou explicar, decorá-lo irá fortalecer as conexões estabelecidas de forma equivocada, pois o cérebro seguirá arquivando-as e a cada vez irá se enraizar mais. Torna-se necessário neste caso a radical modificação da metodologia que está sendo utilizada.
Recomeçar o processo e levar o aluno/a a aprender de novo é muito mais fácil que obrigar uma rede neural consolidada a reaprender. “Se fracassar seguidas vezes num mesmo problema é frustrante, o sucesso no aprendizado, por sua vez, transmite satisfação ao aluno”. (FRIEDRICH E PREISS, 2006).
Certamente você já sentiu a sensação de bem-estar, de felicidade, que recompensa o esforço de ter se dedicado a um trabalho, assim como a sensação de querer aprender mais, aquela motivação que faz vencer o cansaço e ir em frente. Isso tem um fundo científico.
Os neurotransmissores dopamina e acetilcolina, que estão presentes no sistema nervoso, são substâncias que aumentam nossa capacidade de concentração, dá a sensação de satisfação e motiva a querer saber mais. Quando aprendemos algo novo, nosso próprio cérebro nos recompensa com a sensação de prazer.
Daí a grande contribuição da emoção para a aprendizagem e na construção da memória.
Informações nas quais o sistema límbico estampou um selo emocional encravam-se no fundo da memória, e de forma bastante duradoura. Enquanto o mero saber muitas vezes se dissipa com rapidez, os sentimentos perduram por muito tempo. O cérebro se aproveita disso, vinculando diversos conteúdos da memória a um mesmo matiz emocional, que mais tarde – no aprendizado – é reativado e facilita a integração dos elementos de uma nova situação na rede preexistente. (FRIEDRICH E PREISS, 2006)
Então, se o educador/a conseguir imprimir conteúdo emocional ao que está ensinando, terá mais sucesso. Se o ambiente de aprendizado é emocionalmente agradável, estimulará a curiosidade e motivará os alunos/as a aprender sempre mais.
Mas, se pelo contrário, e infelizmente é o que mais ocorre, a criança frequenta uma sala de aula desinteressante, visual e emocionalmente desagradável e essa criança não é estimulada a atuar ativamente, pouco ou nada ela conseguirá apreender, deixando como última opção decorar o conteúdo.
Emoção e motivação balizam (...) o sistema da atenção, que decidirá que informações serão armazenadas nos circuitos neuronais, portanto, aprendidas. A atenção, no entanto, funciona mal se fixada em duas coisas ao mesmo tempo. A atividade numa rede neuronal inibe a atividade nas demais. Assim, a alternância constante entre dois tópicos diversos em sala de aula faz pouco sentido para a assimilação consciente de um conteúdo a aprender. Despertado o interesse, conseguem ter a oportunidade de se concentrar no assunto e de, então, se despedir dele com igual cuidado. Em termos neurobiológicos, isso significa: aquecer, primeiro, a rede neuronal em questão, mantê-la ativa e por fim, deixá-la seguir trabalhando em paz. (FRIEDRICH E PREISS, 2006).
Esse processo de aprendizagem leva tempo para se desenvolver. Muitas horas se passam, segundo os neurocientistas, até que as conexões entre as células nervosas aconteça. As pesquisas ainda não conseguem estabelecer com certeza quanto tempo essa fase dura, mas já se sabe que de nada adianta despejar uma quantidade abundante de informações na cabeça do/a aluno/a enquanto seu cérebro se empenha em consolidar o aprendizado que acabou de receber.
O que pode acontecer é apenas a sobreposição das informações e a consequente perturbação da fixação neural. Os intervalos são, portanto, importantes, as pausas, as brincadeiras descompromissadas, os jogos também.
Por isso, “fechar o livro”, ou seja, repassar todos os conteúdos ininterruptamente, ou trabalhar o livro “de capa a capa”, como também se diz, nem sempre deve ser considerado eficaz. Será que o que foi repassado foi apreendido pelos educandos/as? Só há ensino quando há aprendizagem.
REFERÊNCIA:
FRIEDRICH E PREISS. Educar com a cabeça. Viver mente e cérebro: revista de psicologia, psicanálise, neurociências e conhecimento: Ano XIV, nº 157, 2006.