
Excelência em Educação Nº 08 de 18
A Educação Interdimensional
Via de regra a escola pública é uma escola uniforme. Ela tem uma visão unidimensional dos estudantes porque supõe que eles são todos iguais. A sociedade é plural, o ser humano é plural, mas a escola é uniforme.
O ser multidimensional pode ser dividido em quatro dimensões: física, intelectual, social e espiritual. A multidimensionalidade humana é vista como um modo de analisar o humano de forma holística, contempla a dimensão física - corporeidade (eros); dimensão espiritual - espiritualidade (mytho); dimensão emocional - sentimentalidade (pathos) e a dimensão intelectual - racionalidade (logos), visando seu desenvolvimento e a valorização da vida.
A Dimensão Física
A Dimensão Física está relacionada com o corpo físico. O meio pelo qual o indivíduo existe e manifesta sua essência. O humano, do ponto de vista biológico. O que é denominado corpo, constituído de tronco, membros e cabeça e diz respeito a presença material, física. Sua manutenção requer uma alimentação correta, exercícios físicos, equilibrado e consistente, higiene adequada, lazer responsável, relaxamento, descanso adequado, gestão do stress, exames médicos preventivos. Enfim, todos os meios que assegurem a saúde e bem-estar hoje e mais tarde. Mas o humano é mais que só o físico ou biológico.
A Dimensão Intelectual
A Dimensão Intelectual está relacionada ao aprendizado e ao desenvolvimento dos saberes. Diz respeito à vida acadêmica, mas também está relacionada com a cultura, adquirida por espetáculos de teatro, filmes, boas conversas, enfim, o que é relacionado ao desenvolvimento do intelecto. Desenvolver a dimensão intelectual requer estudo de forma disciplinada, sistemática e contínua.
A Dimensão Emocional
A Dimensão Emocional relaciona-se aos vínculos estabelecidos com o outro. Compreende as relações com a família, amigos, relacionamento afetivo-sexual e outras relações de maior proximidade. Envolve relações estabelecidas na rua, na escola, na praça, no trabalho, na igreja, etc. E desenvolvê-la pressupõe a ampliação da autoconsciência, da motivação pessoal, da empatia, de aptidões sociais, etc.
A Dimensão Espiritual
O humano é eminentemente um ser que busca um sentido para a existência, busca conhecer a si mesmo para conhecer também aos outros. A Dimensão Espiritual, portanto, diz respeito a esta busca. Tem relação com o transcendental, ao seu autodesenvolvimento como Ser e com como o indivíduo vive sua religiosidade. É onde o humano mantém sua essência preservada das influências externas. Negligenciar esta dimensão consiste em relegar o espiritualismo e viver de forma mecânica. A espiritualidade é considerada a essência da existência humana. É uma força dinamizadora que possibilita abertura humana às situações da vida.
As dimensões humanas são interligadas e estão sempre interferindo umas nas outras, sem menosprezar uma nem outra, demandando ações que auxiliem em seu pleno desenvolvimento.
A Educação Interdimensional exige uma nova postura diante de si mesmo e de sua circunstância baseada no que Erich Fromm chama de ética biofílica. Uma ética de amor, zelo e respeito pela vida em todas as suas manifestações. Costa fala que isso se traduz em quatro cuidados básicos: autocuidado (cuidar de si mesmo); altercuidado (cuidar do outro); ecocuidado (cuidar do ambiente em que vive) e transcuidado (cuidar dos significados, sentidos e valores que presidem a sua existência). Por isso é uma educação para valores.
O professor Antônio Carlos Gomes da Costa disse que diante da fragmentação dos processos vivenciados pelo humano, a Educação Interdimensional configura-se como alternativa capaz de reequilibrar as dimensões humanas, desenvolvendo conhecimentos, métodos e técnicas, mas, também, sentimentos, desejos, crenças, valores, significados e sentidos existenciais profundos. Isso poderá contribuir para o enfrentamento da crise ontológica que a humanidade atravessa.
Segundo ele, a educação interdimensional não privilegia apenas a dimensão intelectual, mas o desenvolvimento equilibrado entre esta e a dimensão física, espiritual e emocional. O que implica em ressignificar a educação, munindo os educadores das condições necessárias para preparar a nova geração para a missão de gerir a vida no Século XXI.
Segundo o autor, cada ser humano nasce com potencial e tem direito a desenvolvê-lo. Mas, para isso acontecer, ele precisa de oportunidades. E as melhores oportunidades são as educativas, que preparam as pessoas para fazerem escolhas. E isso eu chamo de liberdade. No Paradigma do desenvolvimento humano, Costa afirma que, o que nos tornamos ao longo da vida depende das oportunidades que temos e das escolhas que fazemos. E, aí, toca fundo no coração dos educadores: as pessoas precisam ser preparadas para fazer escolhas. Uma missão que dignifica uma vida: preparar as novas gerações para fazer estas escolhas.
Educar, hoje, deve considerar uma concepção que pretende conduzir o estudante à aquisição do conhecimento já produzido por novas elaborações, fomentando a sua criticidade, para uma ação que leve a transformação da realidade social. Neste contexto não é aceitável que a escola se limite apenas a função de transmitir o conhecimento acumulado pelas civilizações.
O desenvolvimento de tecnologias e o avanço científico apontam para uma educação que prepare indivíduos criativos, reflexivos, que tenham competência técnica e discernimento ético. Cabe então à escola a preparação para formação integral necessária à sociedade brasileira.
REFERÊNCIA:
COSTA, A. C. G. da. Educação - Uma perspectiva para o século XXI. Editora Canção Nova: São Paulo, 2008.
_____________. A Presença Educativa. 2ª. ed. São Paulo: Global Editora, 2002.