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Empoderamento Popular

Empoderamento Popular Nº 07 de 13

Etnocentrismo

Por Veramoni CoutinhoPublicado originalmente em 2 min de leitura

Na obra a Economia da idade da pedra, Marshall Sahlins (1972) afirma que é conveniente a ideia de uma vida muito dura no paleolítico, levando a imaginar como os caçadores-coletores conseguiam viver, já que mesmo em momento de abundância viviam assustados pelo fantasma da fome. Caçadores-coletores são pobres quando olhamos com nossos olhos. Assim, acredita-se que, por não ter tecnologia desenvolvida precisa desempenhar um esforço contínuo de trabalho pela sobrevivência, não tem competência técnica, não tem descanso, nem lazer, nem tempo para construir cultura. Não tem excedente. O desenvolvimento econômico é classificado como economia de subsistência.

Mas para este antropólogo, na verdade, examinada de perto, a sociedade de caça/coleta é a primeira sociedade da afluência. O que, segundo ele, paradoxalmente, leva a outra conclusão útil e inesperada. Pelo senso comum, uma sociedade afluente é aquela em que se tem todas as vontades materiais facilmente satisfeitas. Entretanto, há duas formas possíveis de afluência. As necessidades podem ser facilmente satisfeitas, seja produzindo muito, seja desejando pouco.

Porém, mesmo baseado em concepções etnocêntricas e errôneas, era conveniente e necessário fazer acreditar que a partir do neolítico tudo estava melhor, que agricultores e criadores de animais trabalhavam menos do que caçadores-coletores. Que tinham mera economia de subsistência, lazer limitado, viviam numa busca incessante por comida, tinham recursos naturais pobres, ausência de excedente econômico. Sahlins enfatiza que a opinião media antropológica sobre caça e coleta que foi disseminada no mundo constituem o que é chamado de preconceito neolítico. São estas crenças que permitem inquerir: “como alguém pode viver num lugar como esse?”

O etnocentrismo pode ser evidenciado na história da civilização do Brasil. Quando iniciou o domínio português nestas terras encontraram uma população que tinha um modelo civilizatório já constituído. Porém, os portugueses trouxeram consigo seu modelo de civilização, que por ser demasiadamente diferente do que encontraram e por estarem arraigados pelo ideal colonialista, julgaram que os índios não eram civilizados. Foram classificados como um povo sem fé, sem lei e sem rei, como classificou Pedro de Magalhães Gandavo. Embora tivessem língua própria, religião, cultura e economia, embora respeitassem a natureza e seus semelhantes, inclusive as gerações seguintes, analisando o impacto que suas ações causariam aos que viriam depois os nativos foram classificados como não civilizados. Este é o maior exemplo de modelo civilizatório que se pode ter e que se perdeu nestes cinco séculos de (des) civilização.

SAHLINS, Marshall. Stone Age Economics. Chicago: Aldine. 1972