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Empoderamento Popular

Empoderamento Popular Nº 08 de 13

As hierarquias

Por Veramoni CoutinhoPublicado originalmente em 3 min de leitura

Em todas as sociedades humanas complexas existe dominação de uma classe sobre a outra. Os terráqueos vivem, invariavelmente, sob o julgo de algum império. A elite sempre se beneficia e tira vantagem. Em todas as sociedades prevalece uma ordem ideológica, econômica e política, em que uma classe dominante exerce forte controle sobre o conjunto da sociedade, funcionando como base dos poderes estabelecidos. Existe sempre, de um lado a burguesia, aristocracia, ricos, poderosos, enfim, a elite, que é fechada a inovações e avessa ao compartilhamento do poder e que, portanto, quer conservar as coisas como estão e do outro lado, os oprimidos que querem mudar isso. As estruturas que foram formadas dividiram as pessoas em pretensos grupos, dispostos em uma hierarquia. Os níveis superiores desfrutavam de privilégios e poder, enquanto os inferiores sofriam discriminação e opressão. “Os superiores ficavam com todas as coisas boas da vida. Os homens comuns ficavam com o que sobrava. Os escravos ficavam com uma surra, se reclamassem”. (HARARI. 2015. p. 141). Isso consagrou a hierarquia entre ricos e pobres.

Para Harari “muitos que viam a hierarquia dos homens livres e dos escravos como natural e correta argumentaram que a escravidão não é uma invenção humana” (2015 p 142). Para muitos era algo fruto da providência divina. Aristóteles afirmou que “os escravos tinham uma 'natureza escrava', enquanto os homens livres tinham uma natureza 'livre'. Seu status na sociedade não passava de um reflexo de sua natureza inata” (Harari. 2015, p 142)

Harari lembra que para um capitalista a hierarquia da riqueza é o resultado inevitável de diferenças objetivas na capacidade dos indivíduos. Ou seja, os ricos têm mais dinheiro porque são mais capazes e aplicados. Consequentemente, como recompensa pelo esforço têm melhor serviço de saúde, melhor educação e melhor nutrição, melhor moradia e acesso a tudo que precise ou queira, ad infinitum. (HARARI. 2015). Eles são merecedores de todos os benefícios de que desfrutam e ninguém deveria se incomodar com isso! A pessoa é alimentada desde cedo com estes discursos e acredita, e tem estes mitos como sendo verdade.

Mitos fazem acreditar que existem os muito indisciplinados e irresponsáveis e, do outro os autodisciplinados e responsáveis. As pessoas são ensinadas a crer que a hierarquia de ricos e pobres, que autoriza os ricos a viver em bairros luxuosos, estudar em escolas de qualidade e ter acesso à saúde, é perfeitamente justa. Mas é um fato comprovado que a maior parte dos ricos são ricos pelo simples motivo de terem nascido em uma família rica, enquanto a maior parte dos pobres continuarão pobres no decorrer da vida simplesmente por terem nascido em uma família pobre. (HARARI. 2015)

Paulo Freire fala disso como “um processo que passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se num clima geral que cria nos opressores uma consciência fortemente possessiva do mundo e dos homens”. (FREIRE. 1996, p.44)

A elite disseminou a ideia de que a natureza recompensa o mérito com riqueza, e penaliza a indolência com a pobreza. Fez acreditar que a distinção entre homens livres e escravos, brancos e negros, ricos e pobres é natural e inevitável. Aliás, toda hierarquia afirma ser natural e inevitável.

FREIRE, Paulo. Pedagogia de autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens – uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015.