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Excelência em Educação

Excelência em Educação Nº 06 de 18

Desenvolvendo inteligências na escola

Por Veramoni CoutinhoPublicado originalmente em 7 min de leitura

O mundo passa por transformações profundas e esta realidade leva as pessoas a desenvolverem sentimentos de insegurança e medo e conformismo, mas também de esperança e criatividade para a construção de um mundo melhor, mais humano e solidário.

São tempos de individualismo exacerbado que provoca também uma exacerbada competitividade. A competição permeia o mundo corporativo na luta por uma vaga e pela manutenção da mesma, uma vez que se precisa a todo instante provar ser o mais competente e mais apto. Permeia igualmente o meio universitário, a ante-sala do mundo do trabalho. Enfim permeia todas as instâncias da vida e gera isolamento entre os indivíduos e deterioração das relações interpessoais.

Marca também esta época uma problemática social que atinge principalmente os jovens, que é um aumento crescente dos índices de criminalidade, suicídios, abuso de drogas, dentre outros sinais de mal-estar social.

GOLEMAN (1995) afirma que no Brasil, “já há sinais (...) que apontam para a emergência de uma alienação e pressão social que, se não contidas, podem levar a colapsos bastante sérios na teia das relações sociais”. Estes aspectos o autor denomina doença social.

Num momento em que as pressões econômico-sociais exigem ajuda mútua entre os indivíduos, o que temos é a desintegração da vida em comunidade e a enorme necessidade de autoafirmação das pessoas.

Há sintomas dessa doença social citada por Goleman entre as crianças. A infância, que é um período de grande importância para a história do ser humano, que chega até a definir que tipo de ser humano se tornará, deveria receber maior ênfase por parte da família e da escola.

É necessário para enfrentamento a essa problemática uma nova forma de interagirmos no mundo, sendo essa interação embasada nos rudimentos de inteligência emocional.

O cotidiano conturbado que os pais levam hoje, permeado por tensões econômicas, com longas e estressantes jornadas de trabalho, em muitos casos tensões oriundas da problemática do desemprego ou subemprego leva ao exercício da paternidade de forma fragmentada.

Os pais precisam dedicar o pouco tempo que têm a ajudar seus/uas filhos/as a lidar com suas próprias emoções, ao estabelecimento de contatos significativos. A questão não é quanto tempo se dedique aos filhos, mas a qualidade desse tempo. As crianças têm uma necessidade enorme de aceitação/atenção, com um pouco de “investimento” dão respostas incríveis.

Isso vale igualmente para os professores. Precisamos olhar com olhos verdadeiramente de educadores/as para nossas crianças, ter empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir o que o outro sente e tomar para si a responsabilidade de alfabetizar seus sentimentos e emoções, as aptidões do coração.

Etimologicamente a palavra misericórdia significa entrar no coração do outro, não é sentir dó, pura e simplesmente, é entrar no coração. A realidade da educação escolar não permite que seus professores/as sequer vejam de fato seus alunos/as, tamanho é o volume de ações que a educação demanda e as precárias condições a que são submetidos, quanto mais tenham essa sensibilidade.

Os educadores se queixam que os/as alunos/as estão cada vez mais sujeitos às perturbações emocionais, mais revoltados, rebeldes, nervosos e agressivos. Porém, a escola negligencia o desenvolvimento de aptidões humanas de autoconsciência, autocontrole, empatia, capacidade de cooperar, dialogar e resolver conflitos.

É preciso que os educadores/as se reconheçam como mediadores também do processo de gerenciamento da inteligência e das emoções dos seus alunos/as, visando torná-los mais felizes e sábios.

Não é papel do professor da nova escola, da escola que sociedade pós-moderna demanda apenas repassar conteúdo. O aluno/a de hoje é um sujeito diferente do aluno/a do passado, são outros os fatores que os condicionam quando não estão em sala de aula.

Se os alunos/as são desinteressados, podemos nós, educadores/as estarmos sendo desinteressantes, por não termos compreensão de como conquistar a atenção de crianças e jovens com pensamentos mais complexos a cada geração.

Ao analisar os alunos/as da geração anterior e estabelecer paralelo com os da geração atual pode ser percebido que houve significativa perda de concentração, aumento da ansiedade. Os educadores/as precisam conhecer o que levou a isso, as consequências desse processo e como desenvolver estratégias que visem transformar a prática docente.

A qualidade e a velocidade do pensamento mudaram. A infinidade de estímulos que a tevê apresenta produz resultados inconscientes graves. Personagens com diferentes personalidades competem com a imagem dos pais e dos professores/as, que não mais exercem a influência que outrora exerciam no mundo psíquico das crianças e jovens.

Para CURY (2003) “Seus gestos e palavras [dos pais e professores] não têm impactos emocionais e consequentemente, não sofrem um arquivamento privilegiado capaz de produzir (...) outras emoções e pensamentos que estimulem o desenvolvimento da inteligência”.

Como os professores/as não conquistam a atenção, precisam usar da autoridade (em muitos casos, autoritarismo) como gritos, ameaças para conseguir ministrar suas aulas. É, portanto, imprescindível que os educadores/as conheçam melhor o funcionamento da mente, mas apenas isso não basta, é preciso desenvolver ferramentas pedagógicas que ajudem os alunos/as a gerenciar seus pensamentos e desenvolver seus talentos.

Sabemos que temos duas mentes, dois cérebros, uma mente racional e outra emocional, assim como uma inteligência emocional e outra racional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas, sendo que nenhuma deve sobrepor-se a outra, mas complementar-se e harmonizar-se.

Segundo GOLEMAN o intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional, eles são parceiros integrais na vida mental, que quando interagem bem a inteligência emocional e a capacidade intelectual aumentam.

A criança é fruto das relações que estabelece desde que passa a existir. Quanto mais cedo puder ter contato com meios que propiciem a alfabetização emocional, melhor. Na idade pré-escolar as aptidões serão enraizadas e este é um momento excelente para iniciar a alfabetização emocional.

O professor/a deve estar sensível para os sinais de curiosidade emitidos sobre a empatia, as emoções, sentimentos e todos os fluxos emocionais, como raiva, medo, angustia, ansiedade, etc. Estes sinais indicam que o momento é propício para iniciar o processo e o educador/a deve estar preparado para isso.

O domínio das estratégicas, das dinâmicas, são apenas o meio. O professor/a deve ter as qualidades necessárias.

Para desenvolver os conteúdos da alfabetização emocional o professor/a deve ser possuidor/a de alguns requisitos como ter a mente aberta ao novo para enfrentar com entusiasmo e ousadia os novos desafios, as novas teorias e as novas situações.

Ter inteligência interpessoal, que saiba e goste de se relacionar com as pessoas, que saiba ouvir, que busque compreender. Deve ter empatia, que é a capacidade de colocar-se no lugar do outro/a, sentir seus sentimentos e criar sintonia com as outras pessoas. Deve ter inteligência intrapessoal, para compreender seus próprios sentimentos e emoções.

Deve ter atitude de pesquisa, ser um aprendiz para conhecer o seu aluno/a e o universo que o/a cerca, para estar bem fundamentado teoricamente e tenha competência. Competência esta que deve ser partilhada. O professor/a deve ter o desprendimento intelectual para ajudar seus companheiros/as a crescer juntos.

Deve ter senso crítico, para saber receber críticas e convertê-las em crescimento, deve ter caráter forte para admitir seus erros e mudar de atitude. De nada adianta ter domínio técnico se não as reflexões sobre inteligência emocional não propiciarem ao educador e à educadora mudanças atitudinais.

É preciso mudar profundamente os métodos a que estamos acostumados a usar para delegar ao cérebro sua função primordial, que a capacidade de pensar, e não apenas decorar. A memória é importante, mas não pode ser o centro do processo.

A neurobiologia comprovou que quando o assunto a ser apreendido tem conteúdo emocional a aprendizagem será mais eficaz. Que implicações isso traz para sala de aula? A concepção de antagonismo entre razão e emoção ainda subsiste? Que importância se dá à emoção na escola?

REFERÊNCIA:

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. São Paulo: Objetiva, 1996.

CURY, Augusto Jorge. Pais brilhantes, professores fascinantes: A educação de nossos sonhos, formando jovens felizes e inteligentes. Rio de Janeiro, Ed. Sextante, 2003.