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Excelência em Educação

Excelência em Educação Nº 16 de 18

A função instrucional da escola

Por Veramoni CoutinhoPublicado originalmente em 6 min de leitura

A escola é o locus da construção do saber. Certo? O professor é o instrutor por excelência. Será? Se for isso que se espera da escola e do professor talvez esteja esperando errado.

Cortelazzo, em suas reflexões sobre Pedagogia e as novas tecnologias, define tecnologia como “a aplicação de um conhecimento científico ou técnico, de um ‘saber como fazer’, de métodos e materiais para a solução de um dado problema”. E define Tecnologia de informação como sendo o que:

“designa  toda forma de gerar, armazenar, processar e reproduzir a informação. Exemplos de suportes de armazenamento de informações são o: papel, os arquivos, os fichários, as fitas magnéticas, os discos óticos. Dispositivos que permitem o seu processamento são  os computadores e os robôs, e exemplos de aparelhos que possibilitam a sua  reprodução  são  a máquina de fotocopiar, o retroprojetor, o projetor de slides. Tecnologia de Comunicação designa toda forma de veicular informação. (Cortelazzo, 2006)

Os diversos tipos de mídia se misturam e formam novos ambientes de trabalho e lazer, enfim criam uma nova realidade, que está disponível a quem dela necessitar.

Falar das novas tecnologias e seu uso em sala de aula ou em ambientes de aprendizagem de modo geral leva a reflexão de quanto o ser humano evoluiu ao longo da sua trajetória. Até o mais rudimentar artefato utilizado pelos nossos antepassados pode ser considerado um alicerce para a chegada no maravilhoso mundo de desenvolvimento tecnológico que temos hoje.

A tecnologia está presente nas tarefas mais simples do dia a dia, mesmo nas que não são perceptíveis. Já em 1969 McLuhan previu que a evolução das tecnologias modernas traria várias consequências à educação. A linguagem do rádio, televisão, revistas, internet permeiam a sociedade contemporânea, mas a escola ainda opera com linguagem escrita. Não é por menos que muitos dos indivíduos ainda se encontrem alijados do mundo tecnológico.

É necessário, porém, que se estabeleçam limites que definam a questão do uso correto das TICs. Não se trata, de substituir a intervenção do professor/a, mas de servir de base para que os diferentes recursos tecnológicos seja alicerçado o conhecimento. Quanto a isso, Cortelazzo, que afirma que:

Os professores devem trabalhar com seus alunos não só para ajudá-los a desenvolverem habilidades, procedimentos, estratégias para coletar e selecionar informações, mas, sobretudo, para ajudá-los a desenvolverem conceitos. Conceitos que serão a base para a construção de seu conhecimento. (CORTELAZZO, 2006)

A escola provedora de informação já não responde à demanda da nova sociedade. A escola para a sociedade da informação é a que desperta nos alunos e alunas os mecanismos necessários para lidar com o imenso volume de informações a que são diariamente submetidos. Acesso a conteúdo os alunos/as têm. Cabe à escola desenvolver o desejo no aluno de querer ter essas informações e poder transformá-las em conhecimento.

Perde sentido o discurso de fatalismo de muitos professores que diz que os alunos “não têm interesse em aprender” Talvez não tenham interesse na maneira como os conteúdos são repassados. Esse anacronismo resume o descompasso educacional. Tudo mudou, mas a escola insiste em ser a mesma.

Tais questionamentos raramente estão presentes na escola pública brasileira, em que, segundo Vitor Paro:

Os professores, ainda influenciados pela ideologia liberal burguesa (...), continuam buscando, para as atuais camadas sociais usuárias da escola pública, a mesma meta de ingressar na universidade, que era objetivo da escola pública de três ou quatro décadas atrás. Mas a população escolar mudou, e as crianças e adolescente que frequentam hoje a escola pública já não trazem o background dos estudantes da antiga escoa pública ou da atual escola privada. Junta-se a isso a consideração das precárias condições de funcionamento das escola mantidas pelo Estado e se terá o quadro de ineficácia das mesma diante de suas obrigações sociais. (PARO, 2007).

A inquietude é uma característica do sujeito pós-moderno e isso deve ser aproveitado pela escola para que o aluno queira buscar informações e construir o conhecimento. Antes de tudo, a postura do professor deve ter um quê de inquietude, que possa instigar a busca pelo novo.

Hamilton Werneck fala em suas palestras sobre o crime pedagógico, o pedagocídio, que segundo ele, é um crime perfeito, pois não se encontra o culpado. De fato, sabemos que não se pode atribuir aos professores as razões pela educação andar como está. Muito menos à família ou ao aluno/a. As razões são mais profundas e são tantas, quantos forem os problemas.

Todavia, para um diálogo travado entre educadores/as que somos vamos aqui enfatizar a situação do docente, entre outras coisas, pela relevância que tem para a eficácia da educação.

Pesquisam mostram que 92% dos professores estão com três ou mais sintomas de estresse e 41% com dez ou mais. Os professores estão quase duas vezes mais estressados do que o restante da população. Na Inglaterra, o governo tem dificuldade de formar professores por que poucos querem essa profissão. No caso do Brasil, muitos optam pela educação não por paixão ou convicção, mas por falta de oportunidade de ingresso em outra profissão.

Aristóteles disse que o ser humano pode vencer até sem preparo, mas não sem motivação. Torna-se difícil encontrar motivação com situações tão adversas de trabalho, baixa remuneração e pouca valorização do profissional da educação.

A postura do docente perante seus alunos/as tem de mudar frente ao novo contexto. De único detentor do saber, ele deve passar a ser intermediário entre o conhecimento acumulado e a curiosidade e necessidade do aluno/a. O professor deve instigar essa curiosidade, como dizemos, deve fazer o aluno/a querer, para então saciar o interesse.

Segundo Perrenoud (1999), o professor/a precisa dominar nove competências para intervir pedagogicamente neste novo contexto. Precisa: 1) Gerenciar a classe como uma comunidade educativa; 2) Organizar o trabalho no meio dos mais vastos espaços-tempos de formação (ciclos, projetos da escola); 3) Cooperar com os colegas, os pais e outros adultos; 4) Conceber e dar vida a dispositivos pedagógicos complexos; 5) Suscitar e animar as etapas de um projeto como modo de trabalho regular; 6) Identificar e modificar aquilo que dá sentido aos saberes e às atividades escolares; 7) Criar e gerenciar situações-problema, identificar os obstáculos, analisar e reordenar as tarefas; 8) Observar os alunos nos trabalhos; 9) Avaliar as competências em construção nos alunos.

O educador da escola nova, da escola para a sociedade pós-moderna que vivemos, precisa estar em constante mudança, deve estar pronto converter as necessidades dos alunos/as em saber.

A informação está na internet, na televisão, nas revistas, no celular, com todo o dinamismo e rapidez. Nosso papel como educares/as é criar meios para que o aluno/a consiga distinguir os conhecimentos relevantes, analisar e criticar os conteúdos disponíveis.

O mundo mudou, a escola precisa mudar, e o professor/a precisa fazer parte dessa mudança.

REFERÊNCIA:

CORTELAZZO, Iolanda Bueno de Camargo, ROMANOWSKI, Joana Paulin. Pesquisa e Prática Profissional – Materiais Didáticos. Curitiba: IBPEX, 2006.

Perrenoud. P. Construir as Competências desde a Escola, Porto Alegre, Artmed Editora.1999