
Empoderamento Popular Nº 05 de 13
Da alienação social a uma vida plena de sentido
O indivíduo cultivou interiormente sentimentos de desamparo e solidão, pois perdeu o contato com sua dimensão mais humana, deixou de ampliar suas virtudes, e assim tornou-se incapaz de interagir com os mesmos aspectos essenciais das outras pessoas.
É a este processo se chama de alienação social. O consumo é um mecanismo usado para preencher o que é chamado de vazio interior. A busca pela realização do desejo, a busca pelo prazer é para muitos o único propósito da vida. A isso dá-se o nome de Hedonismo.
Adota-se um sistema de recompensas extrínsecas, em que as coisas ou as experiências exacerbam o materialismo. A busca da felicidade consiste em alcançar seus anseios materiais. Estes estímulos externos têm se mostrado contraproducente a longo prazo, uma vez que garantem bem-estar subjetivo, porém, momentâneo.
Para compreender este processo tem-se a metáfora da esteira hedônica, em que, querendo alcançar o bem-estar o indivíduo corre atrás da realização dos anseios materiais. A impossibilidade de alterar o estado de satisfação deixa o sujeito estagnado, parado no lugar, o indivíduo encontra-se anestesiados pela esteira hedônica.
Segundo Erich Fromm (1983), ao avançar materialmente, o humano se aparta cada vez mais dos outros seres e a liberdade tão almejada torna-se uma armadilha assustadora da qual ele tenta fugir através da conquista de recursos financeiros e da guerra pelo poder, por meio da passividade frente ao autoritarismo e do conformismo social, pois assim, segundo Fromm, o ser humano sente que não está sozinho, pois finge que possui alguma coisa, ou que é possuído por alguém.
Quanto menos conectado com o outro, com a natureza e com sua própria existência maior é a dor da própria aceitação.
A busca hedônica justifica a ida à um restaurante onde, numa noite gasta-se o equivalente ao aluguel mensal ou a veneração de um par de sapatos numa vitrine, tal qual uma obra rara num pedestal de um museu. No entanto, nada disso traz uma satisfação duradoura. E quando o efeito da anestesia passa, sente-se a necessidade de outra experiência de consumo, e assim sucessivamente, na tentativa de fugir do confronto com sua própria existência.
Como bem lembra Peter Russell, esse apego às coisas não apenas tem sérias consequências com o relacionamento das pessoas, com o mundo ao redor, ele também afeta as vidas pessoais e leva a preocupação se o mundo dará o que se quer e isso perturba a paz de espírito, mas nenhuma dessas preocupações leva mais perto do que realmente se quer, que é estar em paz.
O que perpetua este modelo de sociedade é o fato do consumo criar momentos de transcendência. Breves, porém considerados irresistíveis para a maioria dos indivíduos. Diante de uma experiência de consumo o sujeito fica inebriado pela “felicidade” que a experiência gera. Estas experiências, porém não permitem expressar plenamente as inclinações e, portanto, não é capaz de satisfazer as aspirações mais profundas.
Estar cercado por amigos e familiares é um dos determinantes mais importantes do bem-estar. A constatação de que as melhores coisas da vida são de graça, como afirma Henry Thoreau: o homem mais rico é aquele cujos prazeres são os mais simples, são afirmativas que podem provocar a reflexão necessária para a reversão da lógica do consumo e promover a mudança de concepção em que poder ter não significa precisar ter.
Recorremos, então, a Ferreira (2005) para elucidar que numa sociedade sustentável, o progresso é medido pela qualidade de vida (saúde, longevidade, maturidade psicológica, educação, ambiente limpo, espírito comunitário e lazer criativo) em vez de puro consumo material, como é apregoado na sociedade de consumo.
Família e comunidade parecem ter mais impacto na felicidade do que dinheiro. Pessoas com famílias coesas, que vivem em comunidades unidas, que lhes dão apoio são significativamente mais felizes do que pessoas cujas famílias são disfuncionais e que nunca se encontraram, ou nunca buscaram uma comunidade da qual fazer parte.
Harari (2015) afirma que uma vida cheia de sentido pode ser extremamente gratificante mesmo em meio a adversidades, ao passo que uma vida sem sentido é um suplício terrível, independentemente de ser repleta de conforto. O autor cita Nietzsche, que afirma que, se você tem um motivo para viver, é capaz de tolerar praticamente qualquer coisa.
Edgar Morin (2002) ratifica esse pensamento quando afirma que é necessário aprender a estar aqui no planeta. Estar aqui significa: aprender a viver, a dividir, à comunicar, a comungar; e o que se aprende somente nas - e por meio de - culturas singulares. Ele afirma que precisamos aprender a ser, viver, dividir e comunicar como humanos do planeta Terra, não mais somente pertencer a uma cultura, mas também ser terrenos. O autor fala que, mais que tentar dominar, deve-se condicionar, melhorar, compreender. Devemos inscrever em nós: A consciência ecológica, isto é a consciência de habitar, com todos os seres mortais, a mesma esfera viva (biosfera): reconhecer nossa união consubstancial com a biosfera conduz ao abandono do sonho prometéico do domínio do universo, para nutrir a aspiração de convivibilidade sobre a Terra.
Para tanto é necessário que aconteça uma revolução, em que a dimensão afetiva e a busca pela liberdade, prepondere sobre a crise de identidade e sobre a fragilidade afetiva, em que os princípios éticos superem a pulverização de valores. Em que a sabedoria supere a fragmentação do conhecimento e assimilação mecânica de informações. Em que a solidariedade supere o individualismo. Em que a cooperação supere a competição.
Antônio Carlos Gomes da Costa (2002) fala da intensidade inédita na história do desejo de auto compreensão, auto aceitação, autoestima, auto proposição e autodeterminação, na busca da auto realização e da plenitude humana, que leva a uma nova relação consigo mesmo. Na relação com os outros, constata-se uma busca de ressignificação dos laços interpessoais na família, na escola, no trabalho, nas relações afetivo-sexuais. Ainda segundo Costa, na relação com a natureza, vivemos uma época da emergência de uma nova ótica e uma nova ética, embasada nos pressupostos da sustentabilidade reiterando a noção de que cada geração deve legar às gerações vindouras um meio ambiente igual ou melhor do que aquele recebido das gerações anteriores.
Registra-se ainda uma grande fome de sentido existencial, que se efetiva na busca de um significado para sua presença no mundo. Esta presença deve definir a vida em termos de ser e não de ter.
É necessário que se promova o desenvolvimento do senso crítico frente aos apelos da propaganda, que seguindo os ditames capitalistas, embasadores da sociedade de consumo, convertem desejos em necessidades imprescindíveis, que leva ao consumo desmesurado, e, por conseguinte, gera resíduos, agudizando os problemas ambientais.
Dentre as alternativas viáveis, tem-se o consumerismo, que é um movimento caracterizado pela atitude que leva ao consumo racional, controlado e responsável. Este tipo de consumo considera as consequências econômicas, sociais, culturais e ambientais do consumo. Por isso diverge do comportamento consumista, que é baseado no impulso. O consumerismo ajuda a criar o equilíbrio entre consumidores, produtores e distribuidores e leva a refletir criticamente sobre o ato de compra. Isso contribui para a uma intervenção menos impactante no meio ambiente.
Para Lang e Gabriel (2005) o movimento denominado consumerismo se afirma como um modelo de ação coletiva na medida em que engloba integralmente as preocupações com justiça e equidade na relação de consumo e evoca uma noção de consumidor que não corresponde ao que o mercado espera. Para os autores, na decisão de compra os critérios como saúde, segurança, e proteção ao meio ambiente são inseridos e respeitados.
Fernando Fernandez (2005) lembra que qualquer caminho viável para alcançar a transição econômica passa certamente por uma profunda mudança cultural. Quanto menos refletimos sobre o sentido da vida, o que somos e o que estamos fazendo nesta vida, maior é a dor quando a esteira hedônica para.
Segundo Erich Fromm (1983), a aceitação do outro e de seu tesouro interior, a prática da solidariedade e do trabalho em conjunto, o exercício da fraternidade e a instituição do conforto social podem oferecer à humanidade uma saída viável para esta trágica situação criada pelo próprio ser humano. Isso certamente passa pela mudança na forma de se relacionar com o dinheiro e com os bens materiais.
Os seres humanos não foram projetados para esteira. A evolução moldou mente e o corpo para a vida de caçadores-coletores. A transição primeiro para a agricultura e depois para a indústria condenou os indivíduos a uma vida antinatural. A superação parte de uma mudança de concepção que possa reintegrar o ser humano com sua essência.
COSTA, A. C. G. da. A Presença Educativa. 2ª. ed. São Paulo: Global Editora, 2002.
FROMM, E. O Medo à Liberdade. Tradução de Octávio Alves Velho. 14ª Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1983.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens – uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015.
LANG, Tim; e GABRIEL, Yiannis. A Brief History of Consumer Actvism. In.: HARRISON, R.; NEWHOLM,T.; SHAW, D. (org.). The Ethical Consumer. Londres, Sage Publications, 2005.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessário à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2002.
RUSSELL, Peter. O buraco branco no tempo. VÍDEO. Ano de Produção: 1999.